quarta-feira, 29 de junho de 2011

DESENVOLVER O HÁBITO DA LEITURA
























Em certa oportunidade, Borges falou que nunca existiu uma época em que ele não lera. Isso soou um pouco estranho na época, pois a palavra leitura era usada quase exclusivamente para ler textos. Hoje em dia a palavra leitura é usada em um sentido mais amplo e devemos dizer no sentido que usara Borges: de leitura do mundo. Ler o mundo é uma tarefa que nunca termina, podemos envelhecer, mas nossa biblioteca do mundo nunca está completa, sempre falta algum conhecimento.


Querer conhecer, desejar o conhecimento ou o autoconhecimento é tipicamente humano. Sócrates começou a aprender música quando já era idoso, e Platão conta que os jovens zombavam dele. Porém, Sócrates não ficava preocupado com isso, pois para ele a vida humana era um processo de constante aprendizado.


Mas como podemos incentivar o hábito da leitura nas crianças? Respeitando as sucessivas fases e tornando a leitura uma tarefa agradável.


Vejamos rapidamente as fases do desenvolvimento do pequeno leitor:
Pré-leitor: Primeira infância (dos 15/18 meses aos 3 anos). É o momento de presentear os pequenos com livros de plástico e, junto com os brinquedos, quando forem tomar banho, colocar na banheira esses livrinhos para que eles possam ver as imagens. Também gostam de chocalhos musicais.

Pré-leitor: Segunda infância (a partir dos 2/3 anos aos 6/7). A criança está começando a conquistar a linguagem. Livros para essa idade são os com muitos desenhos e poucas palavras. Livrinhos de humor, de bichos, contos que retratem famílias e contos de fantasia.


O leitor iniciante (6/7 anos). Os livros devem ser de linguagem simples. São bons os contos com início, meio e fim.


O leitor-em-processo (8/9anos). A criança adora desafios, textos inteligentes, textos de humor, histórias com final inesperado, contos que desafiem a imaginação. O leitor fluente (10/11 anos). É o leitor pré-adolescente, que gosta de histórias de humor, de histórias com heróis ou heroínas que lutam por um ideal, histórias de meninas e garotos que superam conflitos. Gosta também de mitos e lendas, histórias policiais e aventuras.


O leitor crítico (12/13 anos). Agora o domínio da leitura e escrita é total. Capacidade de reflexão, procura do eu, necessidade de entender o seu lugar no mundo. Gostam de aventuras, histórias policiais, romances, crônicas. As moças gostam também dos chamados “contos cor-de-rosa”, as famosas histórias de amor.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

PERSONAGENS DA CRÔNICA






A crônica trabalha o personagem como espelho. A crônica tira as vestes das pessoas, as ajuda a entender a própria subjetividade, a rirem de si mesmas e do mundo. Faz lembrar de um personagem da mitologia asteca chamado Texcatlipoca, o senhor do espelho fumegante.

Tezcatlipoca vestido como um homem simples chega ao palácio de Quetzalcoatl dizendo que tem um presente especial. Quetzalcoatl o recebe e quanto pergunta pelo presente o visitante lhe mostra um espelho. Quetzalcoatl fica admirado e desesperado ao mesmo tempo e pergunta: Todos me vêm desse jeito. O visitante disse que sim. Quetzalcoatl, triste, confessa que ele não sabia que era tão feio, que ele não se conhecia até ver-se refletido nesse espelho.


O cronista, muitas vezes, é como um novo Tezcatlipoca, o senhor do espelho. De fininho, de maneira simples, aproxima o leitor de um espelho para possa ver o próprio rosto. Aquele rosto cheio de marcas de raiva, de dúvidas, com algum sulco de inveja, com instintos que lembram aquele conceito freudiano de que em todo homem existe um canibal, ainda que nem sempre ele se manifesta.



Esse conceito do personagem como um de ficção no qual nos espelhamos nos faz entender a posição de Platão e Aristóteles. Eles entendiam que os protagonistas deveriam ser virtuosos para servirem de exemplo aos homens.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

hábitos do musgo

A poeta Eiléan Ní chuilleanáin.



O título do livro "hábitos do musgo" está escrito dessa maneira, sem letras em maiúsculo, talvez querendo fazer referência a um mundo escondido na cabeça da poeta Eiléan Ni Chuilleanáin. A Kafka Edições publicou em 2010 uma edição bilíngue, organizada e traduzida pela poeta e professora Luci Collin.



Eiléan Ní Chuilleanáin nasceu em 1942 na cidade de Cork, na República da Irlanda. Recebeu o título de Bachelor of Literature no ano de 1968. É uma das editoras-fundadoras da revista literária Cyphers. Poeta premiada, emprega um ponto de vista poético deslocado, enigmático.
No prefácio, Luci Collin assinala que “no panorama da poesia irlandesa contemporânea há um surpreendente número de poetas cuja importância literária vem sendo constantemente apontada pela crítica”. Os livros de Eiléan são reconhecidos pela crítica mundial pela alta qualidade literária.



No poema Antigas Recordações, encontramos o verso que serve de título ao livro:
Descobri os hábitos do musgo
que secretamente paralisa a pedra,
a ferrugem que suavemente rói as dobradiças
para manter a porta sempre aberta.
Tornei-me consciente da verdade
como a maré, impotente, subindo e descendo num certo ponto.

E, como podemos intuir nesse poema, a metáfora hábitos do musgo, talvez seja a força avassaladora e penetrante da poesia. Existe algo de metafísico permeando os poemas, um olhar não convencional, por isso a leitura de seu livro “hábitos do musgo” demanda várias releituras.
Em síntese hábitos do musgo é um livro de poemas profundo, enigmático, excelente para quem quiser penetrar num mundo subjetivo e enigmático.


Resenha de Isabel Furini publicada no ICNews.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

QUEM É A VOVÓ XANINO?







Magda R. Martín é romancista e também escreve contos para crianças. Na entrevista conseguimos entender um pouco o processo criativo que ela segue:


1) Magda, os contos publicados na revista ZJ 2.0 da Espanha, sob o pseudônimo de Vovó Xanino, são um sucesso. Conte-nos, qual é a chave para comunicar-se com o público infantil?
Tento entrar na mente da criança lembrando-me da minha própria infância. A mente infantil não percebe diferença entre os fatos dos quais nós, os humanos, participamos e os que podem viver os animais de qualquer espécie. A sua imaginação é rica e flexível, por isso compreende de maneira natural, com os mesmos programas, o traslado de sucesso de nossa vida quotidiana a uma vida animal. Daí o êxito de tantos contos com animaizinhos humanizados.


2) Como surgiu o pseudônimo de "Abuela Xanino", Vovó Xanino?
De uma maneira muito simples. Eu sou pouco hábil para encontrar títulos e pseudônimos e quando estava escrevendo a novela EL PIANO DE COLA, no fragmento no qual são citadas as "Xanas" asturianas (assim nomeiam as fadas dos rios na Astúrias), alguns amigos chamaram-me para participar de um foro literário. Como devia dar-me a conhecer mediante um pseudônimo, não pensei muito, escolhi "Xanino", que é o nome que se dá aos filhos das Xanas. Fazer-me chamar Xana me parecia demasiada pretensão. E com esse apelativo fiquei conhecida, logo, a causa de minha idade, já cumpri 77 anos, começaram a me conhecer como "Vovó Xanino", e assim permaneceu.


3) Qual é a sua rotina, em que horário você escreve?
Sou pouco notívaga e muito madrugadora, gosto de escrever durante as primeiras horas da manhã, quando, ainda, está tudo quieto, em silêncio. Mas se a inspiração surgir a qualquer outra hora do dia, eu aproveito. Inclusas algumas noites em que fico desvelada (fico com insônia) e, então, se surgir uma ideia, uma cena que possa ser interessante, se escrevo um texto, escrevo-o em um bloco que sempre tenho no criado-mudo, se por acaso as Musas se dignam visitar-me nessas horas.


4) Prefere escrever para adultos ou para o público infantil?
Gosto de escrever para ambos. Desfruto muito plasmando sentimentos profundos em uma historia novela, acho que isso é muito meu, muito pessoal. Não obstante, me houvera gostado de ser uma boa escritora de contos infantis, acho que é um gênero literário bastante difícil de conseguir. As crianças são muito inteligentes, não podemos menosprezá-las, sabem muito bem o que desejam e gosto muito de chegar a seus corações. É muito gratificante ver como elas riem ou se emocionam quando lhes esclarecemos assuntos ou quando realizam leituras de um conto. Eu sou avó de quatro netos.


5) Em que ano começou a escrever? Seu estilo mudou com o tempo ou manteve o mesmo estilo?
Acredito que nós, as pessoas que gostamos de escrever, não podemos determinar uma data concreta de nossos começos. Temos escrito sempre. Considero a arte da escrita como um dom com o qual se nasce (logo se pode ampliar e melhorar com os conhecimentos adquiridos), portanto, sempre estão aí. Sim, lembro que o primeiro conto que escrevi foi aos 9 ou 10 anos e o dei de presente para minha mãe. Nele dava vida a duas baratinhas que falavam entre si. Lamentavelmente não sei onde ficou esse conto, perdeu-se. Logo, ao longo do tempo, segui escrevendo "para mim", uma vez escrito e lido, tudo ia parar no cesto de lixo, nunca me considerei uma escritora capaz, sentia muita vergonha de que alguém soubesse que eu gostava de escrever, não dava valor a meus escritos ainda que, durante meus tempos de estudante, me destacava nas aulas de literatura. Quando eram organizados concursos, geralmente eu ganhava o prêmio. Logo a vida, meu casamento e o cuidado de meus sete filhos afastaram-me um pouco da escrita, ainda que não me afastassem da leitura, tenho lido sempre. O detonador de minha volta à escrita foi a morte de minha mãe no ano de 1990. Escrevi um conto em sua memória, que enviei a cada um de meus irmãos, sem êxito, claro, somente como uma lembrança. Posteriormente, com o falecimento de meu esposo no ano 1992 e com os filhos já crescidos, tive tempo livre para me dedicar à escrita. Naquela época, assisti a uma oficina de escrita para aperfeiçoar um pouco o meu estilo e desde então pratiquei e sigo praticando e aprendendo.Meu estilo creio que sempre foi a narrativa, gosto de narrar, acho que vou melhorando (e isso espero) não mudando.


6) Quais são os seus livros preferidos?
Gosto de todos os que sejam de narrativa, as biografias e as novelas históricas. Logo, qualquer tema interessante ou que se destaque no momento. Não dou títulos porque gosto e já gostei de tantos que não posso escolher um título determinado. Impactou-me bastante uma novela intitulada "Los que vivimos" de Ayn Rand, o "Sinuhé o Egipcio" de Mika Valtari, etc. Não posso escolher, são demasiados. Na atualidade há tantos escritores que é muito difícil encontrar um bom escritor. Acho que antes, tempos atrás, havia melhor literatura que na atualidade. Peço perdão, sinto muito, mas é a minha opinião.


7) Fale um pouco de seu novo livro "El piano de cola" (O piano de cauda).
É um livro não muito longo (não costumo escrever historias longas) que comecei há dois ou três anos e ficou numa gaveta só com as primeiras páginas escritas, esperando tempos melhores, até que um dia eu falei: Daqui se pode criar uma terna história, e comecei a trabalhar. Como quase tudo que escrevo, relatam-se acontecimentos da vida quotidiana, feitos que podiam acontecer a qualquer um de nós em igualdade de circunstâncias. Sucessos correntes da vida. Além de narrar os acontecimentos ou circunstâncias em si, gosto de explicar e intento expor em letras com a maior claridade possível todos os sentimentos que os personagens sofrem, e isso é muito difícil porque os sentimentos, como muito bem fala a palavra, se sentem, mas não existe uma palavra determinada para descrever um sentimento, então, o escritor deve fazer uma unidade com o personagem e, dentro do contexto da história, fazer chegar esse sentir do protagonista ao sentimento do leitor. É algo como ter que escrever entre linhas, coisa que o leitor deve captar.
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