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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A cupa é das estrelas ou a culpa é a ignorância? - Crônica de Isabel Furini

O filósofo Platão dizia que a ignorância é o pior mal que existe. Na filosofia platônica é idealizado um tríptico: o Amor, a Verdade e a Beleza. Para vivenciar esse ideal é necessário ter sabedoria, ou ao menos discernimento.

Pois bem, discernimento é também um "dom". Um dom que algumas pessoas não receberam ao nascer, ou não conquistaram.

Vejamos o caso do livro "A Culpa é das Estrelas" que emocionou milhões de adolescentes no mundo inteiro (e outros não tão jovens). O livro conta a histórica de amor de Hazel Grace e Augustos. Minha surpresa foi que nessa história de amor os jovens protagonistas estão doentes e participam de um grupo de terapia, por isso foi difícil entender como adolescentes de 12 anos, por exemplo, escolhem esse livro.

Uma mãe comentou que a filha tem 12 anos e na sala de aula todas as colegas já leram o livro. A filha também adorou e indica para suas amigas. Ou seja, o livro não é imposto pelo professor, são as alunas que escolhem essa narrativa. Por que? Para responder essa pergunta precisaríamos da opinião de psicólogos, pedagogos e antropólogos. Por que um assunto tão difícil para a vida humana como o câncer é o tema de um livro amado pelos adolescentes?

Como inquiria Jung, será que a sociedade contemporânea só está ocupada em fabricar objetos sofisticados, mas lá, no profundo da psique os medos permanecem escondidos e acaçapados?

Quando comecei a ler o livro fiquei chocada porque esperava um livro leve para adolescentes, e o assunto de "A Culpa é das estrelas" de John Green não é só o amor, mas também o sofrimento dos jovens com uma grave doença.

Como um adolescente de 12, 13 ou 15 anos se sente atraído por uma leitura com personagens com uma doença que assusta até aos adultos? Os personagens estão muito distantes do poderoso Harry Potter.

Um fato relacionado com o livro chamou minha atenção e deu origem a este texto. O livro não agradou as mães, e uma mãe pediu para a escola pública onde o filho estuda, em Riverside, Califórnia, retirar "A culpa é das estrelas" da biblioteca, por achar a leitura dessa obra é inapropriada para crianças de 11 a 13 anos .
A reclamação é que a história tem sexo e câncer... E a vida também, pode ser a resposta.

Voltamos então, ao primeiro parágrafo, a ignorância da qual falava Platão... não podemos fechar os olhos à essa realidade. O mundo atual é de luta e competitividade, tem doenças incuráveis e miséria, adolescentes percebem que devem se adaptar a um mundo com problemas. Alguns falam que o mundo está doente, ou seja, o mundo ideal das redes sociais com pessoas que postam fotos aprimoradas no photoshop, e falam que são incapazes de odiar e que o mundo é alegria e felicidade, não engana nem as crianças que estão entrando na adolescência.

E a ignorância dessa mãe americana é pensar que pelo fato de ter conseguido retirar o livro "A culpa é das estrelas" da prateleira de uma biblioteca de escola pública "as crianças de 11 a 13 anos" não vão ler essa obra. Ao contrário! Elas vão procurar o livro, pedir emprestado, ir na casa do amigo para ler, procurar em outras bibliotecas... com certeza ficarão com curiosidade e procurarão uma maneira de ler esse livro.

Proibir um livro ou um filme é a melhor maneira de fazer o livro e filme mais desejado.

A essência da alma adolescente é transgredir.

Ler um livro pode até ser chato, mas ler um livro proibido parece uma provocação. Desperta o interesse.

Seria mais inteligente em vez de proibir a leitura de um livro, perguntar a causa que faz esse livro tão desejado. Quando um livro que se torna best seller geralmente é criticado por não ter qualidade literária, mas se atinge a alma das pessoas é porque pode conter alguma mensagem que esses leitores querem ouvir.

Texto de Isabel Furini - escritora e poeta premiada.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

PARIS SEMPRE É UMA FESTA


                Nesta época, na qual é tão fácil publicar um livro, é difícil encontrar um bom livro de crônicas. Ou seja, um livro interessante e bem escrito. Por isso chama a atenção dos leitores o lançamento de Evandro Barreto, Na Mesa Cabe o Mundo – De Paris ao bar da esquina, o gosto que a vida tem (Conexão Paris Editora, 2013, 134 p). O autor conseguiu imprimir um ritmo excelente às crônicas. Não é preciso esforço para realizar a leitura da obra – e isso é um trunfo para qualquer cronista.

                Já o escritor americano Ernest Hemingway eternizou essa fascinação que a cidade de Paris desperta nas pessoas com o livro “Paris é uma festa”, e Barreto, com um espírito mais prático, nos mostra a Paris da gastronomia requintada e até compartilha endereços para que os leitores viajantes possam conhecer esses locais.

A obra foi escrita de maneira estratégica, pois o autor desperta a curiosidade dos leitores falando de Paris, de gastronomia, de vinho, e até dando um pulinho na Inglaterra para informar em uma crônica que até Shelock Holmes comia lá. Vejamos um fragmento: “(...) Simpson’s-in-the-Strand. Integrado ao Hotel Savoy, de Londres, o Simpson’s existe desde 1828 e serve o roastbeef mais famoso do mundo, maturado por 28 dias e levado à sua mesa em carrinhos cobertos por grandes tampas de prata com mossas centenárias. O veículo é pilotado por um especialista no assunto, que parece trabalhar na casa desde a fundação”. Evandro Barreta dá uma pequena lista, para não cansar o leitor, de pessoas que passaram pelo local: “Segundo registros insuspeitos de Sir Arhur Conan Doyle, Sherlock Holmes era cliente assíduo”.

                As crônicas são ágeis e cativantes. Elas convidam à leitura. A linguagem é clara e o mérito de Barreto é não se deter demais nos assuntos. São textos de viagens e têm o movimento, a cor, o entusiasmo de uma viagem: “... antes de tomarmos na estação de Saint Pancras o trem que nos donduziria de volta a Paris em duas horas e poucos minutos, pelo Euro-tunnel.” Podemos perceber nesses pequenos fragmentos que a escrita acompanha o ritmo das viagens. Lendo surge a sensação de estar visitando esses locais, seja pela primeira ou pela vigéssima vez.

O viajante não é só o autor, mas também o leitor. Sim, o leitor é o convidado especial, ele contempla paisagens, saboreia bebidas, reconhece o sabor da boa gastronomia. “Meu caso de amor com os mexilhões começou na infância... Mais tarde vieram os mariscos da Catalunha”. Barreto sabe cativar o leitor, fazê-lo viajar nas palavras. Acontece que ele é publicitário e conseguiu passar o dinamismo e o olhar atento dos profissionais da publicidade aos textos.

Se você está acostumado a viajar ou se está preparando a primeira viagem à Europa, esse livro é leitura obrigatória. E se quer visitar esses locais com a imaginação, o livro também proporciona referenciais, dados, pequenos detalhes que ajudam a fazer a viagem maravilhosa. E talvez o mais importante é que terminamos a leitura com aquele desejo de ler novamente algumas das crônicas. Como um bom vinho o sabor dos textos permanece na memória.

                 “Na mesa cabe o mundo” tem um trabalho gráfico aparentemente simples, mas muito bem elaborado e revela a técnica usada no livro: simplicidade, detalhes eloquentes, enumerações precisas, enfim, um livro feito com muito cuidado para conquistar leitores. O livro pode ser adquirido no site:http://www.conexaoparis.com.br/produto/na-mesa-cabe-o-mundo

Isabel Furini é escritora e poeta premiada. Já estão abertas as inscrições para a oficina “Como escrever contos para crianças” no Solar do Rosário, fone (41) 3225-6232. Contato: isabelfurini@hotmail.com,

domingo, 16 de setembro de 2012

A fachada e os fundos" (Resenha)


Recebi o livro de poemas de Edson Falcão, “A fachada e os fundos”, editado pela dezoito zero um cultura e arte, em 2010. É um livro com 44 poemas de cunho contemporâneo, que parece dar olhares de relances sobre o homem inserido no meio urbano. Perdido talvez, entre o mundo subjetivo e o império da objetividade que o obriga a afastar os olhos de si mesmo e focá-los no exterior.

No poema “Não sei quando” fala: “Não sei quando/ o mundo/ nasceu intencionalmente/ sei que pode ter nascido materialmente/ lá no quintal de casa/ há dez anos e cento e oitenta poemas/ mais ou menos”.  Imediatamente o poeta tenta entender a sua realidade e continua dizendo na segunda estrofe: “cheguei munido de textos/ carne osso e significados/ história dentro de histórias (...)”.

Sua poética não tem metáforas simples, nem flores no vergel. É a poética dos jovens que nasceram depois que os ideais dos hippies se transformaram em cinzas. Receberam como herança um mundo consumista, onde o poeta parece não ter lugar. É a solidão sem palavras procurando ecoar em alguém: “o que você talvez espere/ é algo como as marcas do calendário/ que estão a sua espera”. Parece a síntese das horas monótonas e vazias. Só marcas no calendário.

Na introdução, o jornalista, escritor e poeta Jaques M. Brand fala no prefácio que Edson Falcão tem “legitimidade para interessar o leitor que busca, fora da feira literária das vaidades, o fazer poético autêntico”. Ou seja, Edson Falcão é um autêntico poeta, que não escreve só para ser aplaudido, nem satisfazer a vaidade do ego, escreve como todo autêntico poeta, por necessidade de expressão. Poeta escreve da mesma maneira que respira, instintivamente, para não morrer.

Na visão de Jaques M. Brand, com esse livro, “encontramos o artista no inteiro domínio dos seus meios, a ingressar na fase em que se dispensam os mestres...”. Edson nasceu em 1979, em Pitanga, Paraná, e é um poeta jovem estruturando o próprio caminho. Vejamos o poema “O rato que rói meu rosto – 2”:
um homem vindo do interior
cuida de seu interior
como a moça cuida do quarto de seda
guarda segredos como louça
grosso mar de palavras
nexo para usar em casa

 de vez em quando fala e inventa coisas

Resenha publicada no ICNews - coluna Livros de Isabel Furini.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

ESTRADAS PARA ESCREVER BEM (Resenha)


Recebi dois livros nessa semana, COMO ESCREVO? e POR QUE ESCREVO? Obras que fazem parte da coleção “Mistérios da criação literária”, organizada pelo bibliotecário e escritor José Domingos de Brito.
A coleção Mistérios da Criação Literária foi publicada pela editora Novera de São Paulo, fazem parte da coleção: 1- Por que escrevo?, 2 – Como Escrevo?, 3 Literatura e jornalismo, 4 – Literatura e cinema, 5 – Literatura e Política.

O livro COMO ESCREVO, nas palavras do professor e crítico literário Fábio Lucas: “encara de preferência o aspecto instrumental da palavra. Ou, visto de outro ângulo, os modos como o escritor utiliza o aparato necessário ao registro do texto, enquanto elabora o parto da criação”.
O livro de José Domingos de Brito, responsável do site literário Tiro de letra, procura conhecer os meandros da criação literária. Como o escritor começa um novo livro, como organiza a sua obra, qual é o caminho que segue, a trajetória individual para conseguir traçar no papel ou no computador esse mundo paralelo que o mundo de ficção, como cria os personagens, o enredo.

Brito divide seu livro em duas partes. Parte 1, são depoimentos de grandes escritores. Eles falam de seus hábitos, dos caminhos que percorrem. Por exemplo, Amadeus de Queiroz fala: “Vou dar uma ideias. Logo que imagino um romance, crio os seus personagens e, antes do mais, faço uma relação de todos eles, com os nomes e as características de cada qual. Assim os personagens começam a existir desde logo. Vão adquirindo personalidade…”

Na segunda parte do livro, o autor, como bom bibliotecário oferece uma bibliografia comentada, muito útil para conhecer as fontes consultadas.

Além de registrar as falas dos grandes escritores do Brasil e do mundo, Brito escreve uma pequena biografia de cada um deles. Assim, o leitor consegue conhecer o pensamento de grandes escritores e ter os dados biográficos básicos.

Esse livro não pode faltar na biblioteca de jornalistas, comunicadores, e de qualquer pessoa que deseje dedicar-se a escrever contos, crônicas ou romances. O livro é vendido pelo próprio autor, contato pelo e-mail: ­literacria@gmail.com ou pelo fone (11)2991-3247

Publicado no ICNews em 11 de junho de 2012.

sábado, 7 de abril de 2012

Sandálias paternas



Recebi o livro de poemas SANDÁLIAS PATERNAS do poeta paulista Benilson Toniolo, editado pela Casa do Novo Autor. Toniolo é membro da Academia de Letras de Campos do Jordão e criador do Prêmio Araucária de Literatura. Ele é poeta, contista, cronista e tradutor, premiado em inúmeros certames no Brasil e no exterior.

Sandálias Paternas, segundo o próprio autor, é uma obra para ser lida com a alma. Em cada uma das páginas surge uma lembrança: vemos o pai trabalhando, a avó alagoana, a avó Zefinha e sua colcha de retalhos, a mãe, o pai “que colhia morangos sob o Sol”, ao ficar doente “olha da parede com seus olhos cadeados e mãos a ignorar infinitos”, a morte do pai, a casa, o vento, “o frio percorrendo do tornozelo ao topo da espinha”. Benilson Toniolo vai recontando, tecendo com trama poética a sua própria história.

Na continuação podemos ler Outros Poemas. No final, como um bom vinho, surpreende-nos com uma belíssima descrição de Santos. Um poema para perdurar na memória, pois a cidade do litoral paulista é descrita com traços fortes e estéticos:

Esta parede esverdeada de colinas, que se debruça sobre os casebres.
Estes casebres que se debruçam sobre o oceano
- um oceano inteiro de memórias –
Este odor marinho impregnado na minha alma menina,
Estes barcos ancorados que carrego comigo,
Estas escadarias submersas
Esta areia rude e escura,
Estas pedras submersas desde sempre
Os prédios da Estação de Praticagem
(…)
Cargueiros abarrotados de comércio
E canoas em busca de sardinha.

Os poemas de Benilson têm profundidade e um olhar que avança e nos contagia. Aparentemente simples, esses versos nos levam por caminhos inesperados. Há versos belíssimos que nos surpreendem. Benilson Toniolo tem o dom de expressar suas visões de maneira clara e elegante, de descrever paisagens e sentimentos com força e vitalidade.


A capa de “Sandálias Paternas e Outros Poemas” traz uma fotografia velha e desbotada, mas como contraponto, os poemas de Benilson são nítidos, bem elaborados e confabulam com o leitor para relembrar a própria história. Um belo trabalho de interiorização.

segunda-feira, 12 de março de 2012

AS EMOÇÕES QUE O VINHO DESPERTA


Os enólogos vão curtir este livro de Fábio Antonio Filipini, “Do vinho as emoções”, (Editora Caravansarai, 2010, 125 p.). É difícil determinar o gênero literário, simplesmente porque é o vinho, o seu sabor, sua cor, seu corpo, que são apresentados nessas páginas. Mas o autor considera que são crônicas sobre o vinho e, como esse gênero é muito amplo e admite o ponto de vista, consideramos que a obra é composta de crônicas lírico-reflexivas.

O engenheiro Filipini, que já escreveu livros técnicos, participou de um curso sobre vinhos no Centro Europeu de Curitiba e decidiu escrever um livro sem seguir uma metodologia determinada. As ideias vão e voltam. Surgem dessa maneira frases poéticas inspiradas no vinho. Por exemplo, a página A complexidade termina com a seguinte frase: “Apreciar o complexo não tem nexo, é de ficar perplexo”. Já no texto “Maduro”, termina com a frase: “Seja maduro, não tão duro, não fique em cima do muro”.

Podemos ver que o texto vai fluindo como o vinho, ora é reflexivo, ora poético. Filipini escreve: “O vinho é uma criança, vive sem dúvida na mente pela eternidade. Por sua composição física, o vinho é. No vinho não existe dúvida de verdade.” O trabalho gráfico é de alta qualidade, os quadros escolhidos para ilustrar cada um dos textos são de notável excelência.


Na crônica O processo, lemos “O vinho é o catalisador do viver”. Os apreciadores de vinho que gostam de prosa poética com reflexões disseminadas ao longo das páginas poderão perceber a beleza dessa obra. Um conselho: é bom ler enquanto se está degustando um tinto leve ou um branco encorpado, talvez um espumante ou um frisante, um rosé ou outro que o leitor aprecie. Pois o livro “Do vinho as emoções” é isso mesmo, uma configuração poética-reflexiva do ato de beber e apreciar vinhos.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O LIVRO DO ESCRITOR por Thiago Rapsys



Thiago Rapsys publicou no Blog Eco Livros a resenha de uma obra de minha autoria. Fiquei admirada, pois não é comum estudantes do Ensino Médio ter interesse pela arte da escrita. Thiago autorizou a reprodução da resenha:

Logo de início me empolguei com o livro! O título é chamativo, desperta curiosidade (principalmente em quem já pensou em escrever). O livro é fruto de um trabalho longo e intenso feito pela Isabel - e eu a reconheço muito por isso - em 1999, Curitiba. "O livro do escritor foi concebido a partir das Oficinas de nome Como Escrever um Livro, que ministramos em duas instituições da cidade de Curitiba: no Solar do Rosário (de 1999 até 2008) e no Centro Filosófico Delfos (de 2000 até 2009)", esclarece a autora.

Ela esclarece também que o livro não é um passo-a-passo de como fazer um livro. O livro dará sinais para você seguir o seu caminho. No começo ela enfatiza muito você escrever uma página por dia, com a finalidade de criar um hábito - e fazer disso um ótimo instrumento para o ramo.

O Livro do Escritor (ed.Instituto Memória, 2009) abrange muitos detalhes que, para nós leitores, nem notamos o quão foi difícil. Como por exemplo: como iniciar, disciplinando-se, por que escrever?, o ato de escrever, o trabalho, o conto, função do conto, a cena final, contraste, o narrador, a importância do narrador, o personagem, criação dos personagens, discurso direto e indireto, o enredo, o romance, como escrever livros infantis?, elementos da composição literária etc.
E se erramos? Se erramos - e todo autor erra alguma vez - devemos lembrar o maravilhoso poema sobre Picasso, de Afonso Romano Sant'Anna, que inicia com uma afirmação: "Picasso erra quando pinta e erra quando ama". E finaliza dando uma nova dimensão ao erro. "Ele erra, mas nele, o erro, mais que erro - é errância".
O livro do escritor | Página 19

No final de cada capítulo há exercícios para você praticar a sua escrita. Esses exercícios costumam ser a criação de contos (se você não sabe, leia o livro que tira praticamente todas as dúvidas sobre isso). E junto com os exercícios, no final do capítulo, ela passa uma sugestão de leitura.

Tudo é muito enriquecido em mínimos detalhes com citações de livros clássicos, de renomados autores (como Hermann Hesse, Machado de Assis, Goethe etc.) e suas próprias palavras. Palavras de alguém que entende do assunto.

O livro limita-se um pouco, o foco são os iniciantes e/ou pessoas que realmente querem escrever uma obra, mas não fazem ideia de como começar ou de como fazer isso ou aquilo. Mas no meio há dicas para quem já é escritor também. Recomendo esse livro à todos. Todos que quiserem escrever um livro, ter motivação para tal atitude ou mesmo por curiosidade!
Thiago Rapsys

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O DIREITO E A ARTE – UMA COLETÂNEA







O livro “O DIREITO E A ARTE – Uma coletânea” (Ed. Solar do Rosário, 2011, 328 p.) foi lançado no mês de junho, mas o projeto já tem cinco anos de história. O objetivo é compartilhar com o público a coleção privada de João Casillo.

Com a seriedade que caracteriza as ações dos doutores e colecionadores de arte Regina e João Casillo, o projeto “O Direito e a Arte – Uma coletânea” iniciou-se em 2006. A editora do Solar do Rosário conseguiu aprovação pela Lei Rouanet. O objetivo era mostrar a coleção particular de obras e peças ligadas ao direito e à justiça. São mais de duas mil peças reunidas pelo advogado Casillo ao longo de 40 anos. Em 2009, as peças começaram a ser catalogadas. Em 2010, foi o momento das fotografias e editoração. O livro foi finalizado no início de 2011.

No prefácio, o autor esclarece que “algumas peças foram adquiridas em antiquários, outras são réplicas de museus. O maior número ou vem diretamente das mãos dos artistas ou mesmo de fotos ou reproduções”.

Obedecendo à temática jurídica, o livro apresenta quadros, gravuras, esculturas, miniaturas, documentos. O fio condutor é a proximidade da arte com o tema jurídico. As obras foram organizadas por assunto, começando com arquitetura. O primeiro capítulo fala do imóvel de estilo palaciano, o sobrado rosa da esquina das ruas Lourenço Pinto e Sete de Setembro, construído em 1850. Em 1999, esse imóvel foi comprado e restaurado, conservando as características originais. Ele é parte da história de Curitiba.

O segundo capítulo, “As várias concepções artísticas da justiça”, começa com um texto que nos leva a entender como a justiça era representada em civilizações antigas: Suméria, China, Japão, Egito, Grécia e, logicamente, Roma. Disse Casillo: “Os antigos romanos, que legaram ao mundo ocidental o maior sistema jurídico, eram muito mais práticos do que abstratos. (...) Entre os romanos várias divindades eram relacionadas ao Direito. Três delas eram responsáveis pela correção nas transações pública e privadas: Fides, deus Fido e Semo Sancus”. Quadros, escultura, desenhos, citações sobre o tema de grandes nomes, entre eles: Homero, Aristóteles, Sêneca, Gandhi e outros.

Em síntese: um livro de arte pensado e editado com cuidado estético que merece um olhar atento para ser apreciado em todos os seus detalhes. O livro não é comercializado, mas está sendo doado para bibliotecas, escolas, universidades e tribunais em todo o Brasil.


João Casillo.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Crônicas de Clarice Lispector


Tornar os livros nossos amigos é tê-los perto em todas as circunstâncias da vida. Também nas férias. Não podemos nos esquecer de colocá-los na mala ou no bolso. E para os amantes das crônicas, temos várias sugestões: Clarice na cabeceira; A Pedagogia dos Caracóis, de Rubem Alves (Verus); ou crônicas de humor, como Os comes e bebes nos velórios das Gerais e outras histórias, de Déa Rodrigues da Cunha Rocha (Auana), que conta “causos” do interior de Minas Gerais acompanhados de receitas tradicionais mineiras. E quem quer se divertir pode também dar uma olhada em Risite Aguda – As melhores piadas de médicos, de Paulo Tadeu (Matrix).

CLARICE NA CABECEIRA. Escolhemos falar de “Clarice na Cabeceira”, (Rocco, 2010, 173 p.), livro com vinte crônicas da inesquecível escritora. As crônicas foram escolhidas por leitores. Cada uma delas é apresentada por um leitor diferente – e famoso.

Ferreira Gullar escolheu O caso da caneta de ouro e, em uma apresentação encantadora, lembra que conheceu Clarice em 1956. Ele estava impressionado com o estilo da autora. Ao conhecê-la, ficou muito mais impressionado. “Ela era linda e perturbadora”. – confessa. – “Nos dias que se seguiram, não conseguia esquecer seus olhos oblíquos, seu rosto de loba com pômulos salientes”.

Já a escritora de livros juvenis, Thalita Rebouças, escolheu a crônica Lição de filhos, e esclarece: “Sentimentos são atemporais e um episódio como o narrado por Clarice pode muito bem estar acontecendo neste momento na casa de qualquer pessoa com filho na faixa dos 13, 14 anos”.

Eucanaã Ferraz escolheu Das vantagens de ser bobo. “Clarice, mais uma vez, revelava-se e revelava-me a mim”, conclui o poeta. Cada um dos leitores fala de sua relação com a leitura. A visão de cada um deles nos ajuda a entender as crônicas de Clarice de um ponto de vista diferente. Talvez quem melhor defina os textos de Clarice é Joaquim Ferreira dos Santos, ao falar: “Clarice jamais seria cotidiana. Há sempre um milagre."

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Coisas que acontecem todo dia, ou nunca! de Fabiana Klimovicz

Fabiana Klimovicz - Foto divulgação.

No seu primeiro livro de crônicas a escritora Fabiana Klimovicz Munhoz da Rocha trabalha, como nas crônicas clássicas, o ambiente urbano, os pequenos conflitos, mal-entendidos, acontecimentos do dia a dia.

Fabiana sabe transformar pequenas coisas, problemas, fatos, em histórias simpáticas e leves. Revela o olhar do cronista, que não é um simples escriturário que faz relatórios, mas um escritor que produz textos com “algo a mais”, com a visão do engraçado, do pitoresco.

A autora, para dar mais sabor as suas crônicas, inventa palavras como “inesperei” e “maridez”. Até um dos personagens do livro, o João, muda os nomes dos colegas do escritório de arquitetura. Um deles se chama Osmar, mas o personagem crítica: Está errado, o certo seria “Osmares”.

A linguagem é clara, os parágrafos são dinâmicos, os diálogos, bem construídos, o livro em si é de leitura fácil e agradável. Fabiana cria enredos simples, mas bem montados, e os personagens parecem familiares, fazem lembrar pessoas que conhecemos.

Por exemplo, a primeira crônica começa dizendo: “Nome de escritor, Érico Lobato já tinha, só faltava o livro de sucesso”. E assim com humor leva-nos a compartilhar os sonhos do novo escritor.

Fui convidada a escrever a contracapa desse livro e aceitei imediatamente. Apesar de ser o seu primeiro livro, as crônicas de Fabiana Klimovicz constituem uma leitura que realmente entretém, diverte e ajuda a refletir sobre o diário viver, pois a vida é constituída também de pequenas coisas.




Resenha de Isabel Furini publicada no ICNews - Coluna Livros

domingo, 18 de dezembro de 2011

CIBERCULTURA, de Pierre Lévy





Você acha que se comunicar é transmitir ou receber uma mensagem? Para o filósofo Pierre Lévy, comunicar-se é muito mais do que isso. Comunicar é partilhar o sentido. Um contexto comum, uma cultura, uma história, uma experiência. Comunicar não é só transmitir uma mensagem. Comunicação é alguma coisa que se constrói.

Em seu livro “Cibercultura” (editora 34, 272 p., 2010), Lévy chama a atenção para o fato de que hoje, no “ciberespaço”, dezenas de milhares de comunidades virtuais comunicam os seus conhecimentos. Estamos vivendo na “cibercultura”, compartilhando um novo espaço mundial, pois a base da sociabilidade não é mais territorial e isso pode ser visto em atitudes simples. Você sobe no elevador e seu vizinho prefere olhar o teto a não ter que dizer “bom dia”. Uma pessoa pode se sentir mais próxima dos membros de sua comunidade virtual do que de seu vizinho do bairro.

A palavra “ciberespaço” foi inventada em 1984 por William Gibson em seu romance de ficção científica “Neuromancer”. Lévy define o ciberespaço como o espaço criado pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores. Uma das primeiras funções do ciberespaço é o acesso a distância aos diversos recursos de um computador. Por exemplo, com um pequeno computador pessoal é possível conectar-se a um enorme computador situado a milhares de quilômetros.

Esse “ciberespaço” gera uma “cibercultura”. A internet permite a troca de mensagens, e-mail, conferências eletrônicas, cursos, comunidades virtuais.

Lévy usa uma metáfora. Uma comunidade é como uma árvore, e a árvore mostra o conjunto de conhecimentos dessa coletividade. É um mapa dinâmico. Uma coletividade aparece como um espaço de conhecimento. Dentro dele, as pessoas se perguntam: Onde estou nessa árvore de conhecimento? O que posso ensinar? O que podem ensinar-me? No livro o autor esclarece: “A organização do saber expressa por uma árvore é fixada para sempre: ela reflete a experiência coletiva de um grupo humano e vai, portanto, evoluir com essa experiência”.

Os livros de Lévy se caracterizam pela profundidade da abordagem. É preciso mergulhar fundo para entender a abrangência dos conceitos desse filósofo que fez doutorado na Sorbonne, França, e trabalha como titular da cadeira de pesquisa em Inteligência Coletiva numa universidade do Canadá. Seu livro “Cibercultura” não é de fácil compreensão, mas é um prato cheio para quem quiser entender um pouco mais das transformações que o mundo está vivendo. Especialmente como essas transformações nos atingem de maneira individual e coletiva.
Vale a pena conferir!

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

ANILINA, ZIGUEZAGUE E DÉSIRÉE (Resenha)




Lançado neste ano, o livro de João Paulo Hergesel chama a atenção, pois se trata do primeiro livro de um jovem (nasceu em 1992) que estuda Letras na Universidade de Sorocaba, escreve livros e colabora com jornais de sua região.
No prefácio, o escritor Alexandre de Castro Gomes conta que foi jurado no 6º Desafio dos Escritores, promovido pelo Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados de Brasília, e Joaninha (João Paulo) destacou-se desde o primeiro momento pela criatividade e humor.

Os contos de Anilina, Ziguezague e Désirée (Editora Patuá, 2011) caracterizam-se pela agilidade da narrativa. João Paulo conta suas histórias com objetividade. Surgem personagens que despertam a atenção do leitor. A primeira pessoa do singular empresta aos contos a sensação de intimidade. Como no conto “Ted”, em que o personagem inicia dizendo: “Em meu estágio de normalidade, sou um cara notavelmente esquisito, a começar pelo nome: Thomas Edison”.

Já “A cor de meus olhos” aproxima-se muito da crônica – um gênero irmão do conto, e que muitas vezes se unem. Nesse e em outros contos do livro, João Paulo narra com humor pequenos acontecimentos que preenchem a vida das pessoas. Os diálogos são sintéticos e ajudam a dar ritmo às histórias.
Vejamos o início do conto “Verano”: “Para minha surpresa quando voltei da escola, o gato já estava lá. Chegou do nada, assim, sem avisar, como chuva de verão. Era filhote ainda, todo preto, apenas o focinho branco - de leite. Nunca havia tido um animalzinho de estimação, mas soube logo no primeiro contato visual que aquele gato de rua cumpriria fielmente com o papel”.

Com o livro Anilina, Ziguezague e Désirée, vemos surgir um novo autor com um futuro interessante.

ENTREVISTADO: João Paulo Hergesel
Interessados na dedicação de um jovem estudante de Letras, decidimos entrevistá-lo para conhecer um pouco de sua maneira de pensar. Isso pode nos ajudar a entender o ponto de vista dos novos autores
1) Quando surgiu o desejo de ser escritor?

Desde criança, sempre gostei muito de viver a minha própria fantasia, inventando histórias e personagens que apenas eu tinha contato; era como uma válvula de escape para minha realidade infantil. Aos 9 anos, decidi começar a colocar isso no papel, então passei a escrever versinhos simples, de rimas fáceis (melão com violão, gato com rato) e foi nessa época que ganhei meu primeiro concurso literário. Mesmo assim, tinha muita vergonha de mostrar às pessoas o que eu escrevia. Apenas aos 15 anos que decidi sair da minha bolha literária e falei "quero ser escritor!", então resolvi apresentar minhas criações ao mundo. A internet ajudou bastante.

2) Quais são seus livros preferidos?

Pode até parecer loucura, mas, mesmo sendo graduando em Letras e estando em contato com inúmeros clássicos da literatura, ainda sustento uma paixão infindável com a literatura infanto-juvenil. Assim, meus livros preferidos são os desse gênero, em especial os da Lygia Bojunga, que, na minha opinião, é a melhor escritora infanto-juvenil contemporânea. O livro dela que mais acho genial é Seis vezes Lucas. Outros livros que permanecerão eternos na memória são O Coração às Vezes Para de Bater, de Adriana Lisboa, e Coração de Vidro, de José Mauro de Vasconcelos (este, um dos primeiros apresentados a mim). Mas o livro responsável por me fazer escolher pela área e despertar meu gosto em escrever para jovens, com certeza, foi Poderosa, de Sérgio Klein.

3) Como surgiu a ideia para o livro Anilina, Ziguezague e Désirée?

Anilina, Ziguezague e Désirée, na verdade, é uma reunião de contos que escrevi desde meus 15 anos até agora. A ideia dessa coletânea surgiu quando descobri que a Editora Patuá estava selecionando originais para publicação. Juntei o que tinha, transformei em algo único e enviei. Para minha surpresa, minha doce loucura literária agradou os editores.

4) O livro é recomendável para adolescentes? Qual é o seu público-alvo?
O livro foi feito para adolescentes, com contos que visam agradar os leitores a partir de 12 anos, acredito. Alguns trazem uma linguagem mais leve, podendo ser compreendida até mesmo por mais jovens. Mas o ideal mesmo é que a obra seja aproveitada pelos estudantes do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio.

5) Qual é sua relação com os leitores? Eles acham interessante ou acham ruim ler livros de um escritor tão jovem?

Não vejo problemas com relação à minha idade. Na verdade, o público se surpreende e, aí sim, quer ler. (risos!) Acredito que, por eu estar nessa transição de adolescência e fase adulta, tenha uma visão boa do que os adolescentes pensam e acabo aproveitando isso para transformar em história. No fundo, acho que escrevo o que eu gostaria de ler e, assim, acabo conquistando os jovens leitores.

6) Fale um pouco de seus novos projetos.

A princípio, continuo escrevendo para jornais locais e "alimentando" meus blogs, em especial o Joaninha Platinada, dedicado à literatura infanto-juvenil. Além disso, continuo participando de oficinas e concursos literários, fazendo palestras esporadicamente e ficando à disposição da minha criatividade. Não sou eu que planejo minhas empreitadas literárias, é ela!

domingo, 20 de novembro de 2011

Sobre Ribamar, de José Castello, por Zeny Belmonte



O jornalista, crítico literário e escritor José Castello é um dos nomes mais conhecidos e respeitados no meio literário brasileiro. Seu último livro Ribamar, vencedor na categoria romance da 53ª edição do prêmio Jabuti, vem confirmar tudo o que já se sabe sobre a solidez da sua trajetória profissional, sobre a paixão que nutre pelas letras desde que se conhece por gente.

A luta pela sobrevivência no início da carreira não lhe deixava tempo para mostrar o seu talento como escritor, ainda mais num país como o nosso, onde poucos sobrevivem exclusivamente desse ofício. Enquanto a disponibilidade não vinha, Castello não se limitou a acumular apenas experiência profissional, enriquecendo-se também como pessoa ao cultivar amigos intelectuais arredios como Ferreira Gulart, dentre outros.

Para quem o conhece, é difícil separar o José personagem do José autor, já que ambos possuem certas características semelhantes, como a capacidade de enxergar as pessoas por dentro, ver e sentir coisas que ninguém mais percebe.

Ao ler Ribamar ocorreu-me uma questão levantada durante um dos tantos encontros literários que frequentei. Do que você quer falar quando se propõe a escrever um livro de ficção? A resposta a essa pergunta ficou muito clara depois de ler essa obra. Eu não lembro de ter tido algum problema de relacionamento com meu pai. Ao contrário, havia uma grande cumplicidade entre nós e bastava um olhar para que um lesse o pensamento do outro. Por que então, fiquei perturbada como se meu interior tivesse sido remexido trazendo à tona experiências e sentimentos que não foram por mim vivenciados?

A grande pegada de Ribamar está no personagem José que, falando na primeira pessoa, faz do leitor um confidente, um cúmplice. Confia-lhe sem restrições mas ao mesmo tempo sem exageros, com elegância, sentimentos inconfessáveis como a repulsa, a não aceitação da decadência física da velhice numa pessoa tão próxima como o pai. Outro tema abordado com propriedade por José Castello em Ribamar, é a incomunicabilidade do amor entre pai e filho, o mesmo de Franz Kafka em Carta ao Pai, livro amplamente citado na obra. Mas as semelhanças acabam por aí. Castello não pega nada emprestado de ninguém, nem se apropria de nada que não seja seu. Ele tem uma linguagem própria, uma voz interior só sua ao partir de experiências pessoais para escrever ficção. Não é à toa que o título do livro seja o mesmo nome do seu pai na vida real e que o personagem principal se chame José, assim como ele. Coincidências à parte, não se trata de um livro de memórias segundo o autor. O título é a forma que encontrou para homenagear a memória paterna.

Em Ribamar, José tenta se livrar da sombra do pai que o incomoda mesmo depois de morto. Ele decide então, fazer uma viagem em busca das raízes desse homem de personalidade forte que não o compreendia, mas que certamente o amava a sua maneira.

A decepção por não encontrar quase nada a seu respeito leva o leitor a se perguntar se Ribamar teria sido tudo aquilo mesmo ou seria apenas o retrato carregado feito sob a ótica de uma criança sensível e introspectiva como José.

Candidatos a escritores podem tirar de Ribamar preciosos ensinamentos. Como aprofundar de um personagem é um deles, a ponto do leitor se identificar com um José humano, gente com a gente. Ao atingir esse nível de interação o autor laça o leitor que se sente compelido a acompanhar o desenrolar da trama do começo ao fim, a caminhar junto com o personagem José na busca das raízes de Ribamar, que no fundo representaria a sua libertação dos fantasmas da infância que ainda o perseguem mesmo depois de adulto.

Ao ler Ribamar, sente-se toda a experiência do autor que trata de assuntos diferentes nos vários capítulos, sem que o livro pareça uma colcha de retalhos soltos ou mal alinhavados. Num trabalho paciente de artesão, Castello valeu-se da partitura da canção de ninar Cala Boca que seu pai costumava cantar para ele quando criança de colo, e que ele resgata ao ouvir a mãe cantar num dos muitos encontros recentes entre os dois, surgindo-lhe daí a idéia de usá-la como elemento de ligação entre os capítulos.

Com a humildade e o cuidado de um iniciante, Castello aguardou quatro anos para publicar o livro, fazendo-o somente quando julgou que estivesse pronto numa demonstração de que ninguém nasce escritor. Trabalho, dedicação e persistência são qualidades importantes para o êxito de quem busca o tão sonhado reconhecimento nesse oficio, e que nesse caso veio a passos lentos porem sólidos de um Jabuti.

Zeny Belmonte é jornalista e escritora, ganhou o Prêmio Talentos da Maturidade (Literatura), em 2009.

domingo, 25 de setembro de 2011

A LIÇÃO APROVEITADA – Modernismo e Cinema em Mário de Andrade

Quem gosta de cinema não só de assistir a filmes, mas de entender o fascínio que ele exerce sobre algumas cabeças brilhantes, como no caso de Mário de Andrade, vai deleitar-se com a leitura de “A Lição Aproveitada”, (Ateliê, 352 p., 2011), especialmente estudantes e profissionais das áreas de Letras, Cinema e Artes em geral, que desejem entender o início do cinema no Brasil e a influência que exerceu sobre a literatura.

João Manuel dos Santos Cunha, professor na Faculdade de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas, doutor em Literatura Comparada (UFRGS), pós-doutorado em Literatura e Cinema (Sorbonne-Nouvelle, Paris III), realizou uma longa pesquisa que revela o impacto que a narratologia cinematográfica exerceu sobre Mario de Andrade e seus contemporâneos. Mário de Andrade escreveu na revista Klaxon (N. 1, p. 2, maio de 1922): “A cinematografia é a criação artística mais representativa de nossa época. É preciso observar-lhe a lição.”

João Manuel dos Santos Cunha fez uma densa pesquisa e conseguiu organizá-la de maneira que a linguagem e a didática ficaram muito claras e agradáveis para o leitor. Ele segue os passos de Mário de Andrade e mostra também o caminho do cinema desde o seu início. É interessante conhecer a visão que Mário de Andrade foi desenvolvendo numa época em que o cinema era só visual, sem som e arte muda.
No começo dos anos trinta, iniciou-se o cinema falado. A genialidade de Mário de Andrade permitiu-lhe ver a potencialidade da voz narrativa cinematográfica, considerou-a “arte infante”, pois ele entendeu que essa arte se desenvolveria com o tempo.

Em 1915, O Nascimento de uma Nação, (The Birth of a Nation, Griffith, USA, 1915), coloca em cena um personagem que se converteria em símbolo do cinema. Esse personagem é Carlitos, de Charles Chaplin. Esse personagem foi considerado peça chave para a cinematografia avançar como arte narrativa.

Após o impacto da Semana da Arte de 1922, é lançada a revista Klaxon, para refletir sobre arte. Andrade tinha a capacidade de refletir sobre as manifestações culturais de sua época. Entre os modernistas, ele se destaca na produção de crítica cinematográfica, numa época em que essa crítica estava nascendo.

“Como intelectual lúcido que busca refletir sobre as manifestações da cultura de seu tempo, Mário vai abordar o cinema como crítico, a partir de sua experiência como espectador constante nas salas de cinema e como teórico da arte moderna, utilizando o cinema como um referencial, ‘a criação mais representativa’ de sua época.”

O professor João Manuel dos Santos Cunha afirma que aprender uma lição não é repeti-la, mas recriá-la. Carlitos foi um mestre do cinema, e aqueles que o admiravam, como Mário de Andrade, entenderam e recriaram a visão narratologica desse personagem. Mário não era favorável à copia, aos artifícios, mas procurava a vida, o ser do personagem. Para ele, romance e cinema tinham suas próprias vozes.

O autor revela-nos um Mário de Andrade muito humano, um homem com visão de futuro, que entendeu a capacidade do cinema de contar histórias. E esse é também o objetivo do romance, contar uma história, mas romance e cinema têm linguagens, técnicas e meios diferentes.

Mario de Andrade argumentou contra o fato de forçar a “intenção da modernidade em detrimento da observação da realidade”. E a literatura, o cinema, a pintura e a escultura exigem observação do mundo, pois falam da realidade humana.

O livro “A Lição Aproveitada” leva-nos pelo mundo da literatura e do cinema e ajuda-nos a conhecer melhor a visão de Mário de Andrade. Vale a pena conferir.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

RESENHA: MINDA-AU


Márcio Renato dos Santos é jornalista e mestre em Estudos Literários pela UFPR, faz parte da equipe do jornal literário Rascunho, fundado em 2001, em Curitiba, pelo jornalista Rogério Pereira.

Conheci Márcio Renato em 2006, quando ministrou uma palestra para a turma da Oficina de criação literária, que oriento no Solar do Rosário. Na época o Márcio havia escrito mais de 600 contos, porém ainda não queria publicá-los. Disse que esperaria até sentir que eles estivessem completamente aprimorados. Essa atitude é muito difícil de encontrar, pois nós escritores somos, geralmente, pessoas muito ansiosas e ainda com o agravante de termos compulsão por publicar. Nesse sentido, Márcio Renato dos Santos revelou uma paciência zen. Atualmente, ele já escreveu mais de 700 contos e decidiu publicar seu primeiro livro. Escolheu 7 trabalhos de seu arsenal, ou seja, 1% dos contos que escreveu, e dessa maneira nasceu a obra Minda-Au (Márcio Renato dos Santos, Ed. Record, 2010, 80 páginas).

O nome Minda-Au evoca um fato de sua vida, era uma criança de um pouco mais de um ano de idade, um dia, gatinhando pela casa, viu um quadro de um dromedário e falou: Minda-Au. Quando recebemos essa informação, o título do livro, a principio estranho, revela o seu valor. O ser humano antes de adquirir a linguagem materna tem sua própria linguagem. “Ninguém entende o que o nenê disse”, desesperam-se as mães. É isso. É a linguagem particular, a torre de Babel que separa os seres humanos. E se todo escritor procura a sua própria linguagem, sua própria voz, nada melhor do que Minda-Au para evocar esse orbe inteligível do eu, onde se misturam lembranças, imagens, sons, emoções, pensamentos, ideias, essa torrente que circula no mundo subjetivo de Márcio Renato dos Santos. Na minha opinião, quando o escritor intitulou Minda-Au ao seu primeiro livro, ele escolheu muito mais do que um título, escolheu ser fiel a si mesmo.

As histórias acontecem em Curitiba, cidade muito carismática, e um pouco desse carisma pula dos contos e apodera-se das retinas dos leitores.
Em “Teletransporte nº 2”, o personagem não sabe se está acordado ou sonhando, enquanto dirige um carro desgovernado. Renato disse que nesse trabalho fez “uma metáfora da própria vida, pois não temos controle sobre nossa trajetória no mundo”. E não temos mesmo! Talvez por isso os gregos imaginavam as Parcas tecendo a vida humana.

"A guitarra de Jerez”, um dos mais belos contos do livro, inicia com uma negação: “Nunca toquei a guitarra que está na sala do meu apartamento. Ninguém mexeu nela. As pessoas que me visitam não tiram os olhos. Músicos desejam manuseá-la. Crianças querem tocar. Não deixo.” (...)

As frases curtas marcam o ritmo, e esse “Não deixo” aguça a curiosidade do leitor. Por que ninguém pode tocar esse belo instrumento?
Márcio Renato dos Santos nos leva por caminhos sinuosos e inesperados. Esse é o primeiro livro de um experiente contista. Vale a pena conferir.

Resenha publicada no ICNews em maio/11.

sábado, 3 de setembro de 2011

O VENDEDOR DE LIVROS


Milton Assumpção é conhecido no mercado nacional e internacional de livros como um dos mais importantes experts em marketing. Sua obra “O Vendedor de Livros (M. Books, 178 p., 2011) é útil para os profissionais do livro, seja para novos escritores que querem conhecer a área editorial quanto para vendedores, editores, publicitários e outros.

Na primeira parte, o autor conta com objetividade sua trajetória profissional. Conhecemos o início de sua carreira como executivo internacional da McGraw-Hill no Brasil e em Portugal, a criação de sua própria editora, Makron Books, e a sua venda para a Pearson. Milton tem o espírito do empreendedor e criou uma nova editora, a M. Books. Sua história é contada através dos lançamentos de livros, das séries e linhas editoriais, enfatizando as ações estratégicas de marketing utilizadas com um único objetivo: vender.

Na segunda parte do livro, Milton Assumpção comenta sobre situações de marketing - experiências vividas na prática em sua carreira editorial. Nestes casos, o leitor conhecerá as ferramentas de marketing utilizadas, as estratégias, os objetivos e, principalmente, os resultados reais conquistados. O autor ensina a entender o público alvo e a dar visibilidade a uma obra.
O Vendedor de Livros é definitivamente um texto de marketing com objetivos definidos em vendas. É possível aplicar as ideias desse livro, isso empolga os leitores.

Resenha publicada na coluna Livros de Negócios de Isabel Furini, ICNews.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

BLABLAblogue: Crônicas & Confissões

Em 31 de agosto comemora-se o Dia do Blogue. Os blogues nasceram como “diários de bordo”, mas atualmente cada blogueiro tem a sua própria opinião de como deve ser organizado um blog. Percebendo essa paixão pelos blogues, que não se limita a jovens, mas que atinge pessoas de idades e profissões diferentes, o premiado escritor Nelson de Oliveira organizou um livro escolhendo segundo o seu gosto pessoal os blogues mais interessantes.



Nelson de Oliveira, no livro “BLABLAblogue: Crônicas & Confissões" (Editora Terracota, 2009, 160 páginas), informa que existem mais de 140 milhões de blogues e cerca de 120 mil são criados diariamente. Ou seja, o blogue já conquistou o coração das pessoas. O critério para escolher os trabalhos que foram publicados no livro obedeceu simplesmente o gosto pessoal do organizador. Entre os escolhidos, destacamos o blog Cantar a Pele de Lontra do excelente poeta Claudio Daniel, EraOdito de Marcelino Freire, Espelunca de Ademir Assunção, Micrópolis da poeta e escritora paranaense Marília Kubota, além do blogue de Fabrício Carpinejar, entre outros destacados escritores. Um livro que reflete as inquietudes da época da internet. A democratização da escrita pode se expressar como blogues para todos os interessados.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

RESENHA: De doze em doze horas







Esse livro de poemas de Alexandre França (editora 1801, 2010, 120 páginas) nos convida para observar a passagem das horas com os olhos do poeta. A subjetividade nos permite ver ambientes, pessoas, a própria cidade de um ponto de vista diferente: “ à noite mergulhar no fim mudo da linguagem, /modelar ruma raça...”.

A poesia de Alexandre França é moderna e imprevisível. Foge dos moldes, dos padrões. França nos leva por caminhos desconhecidos, abre diante de nossos olhos um mundo ignorado, uma dimensão poética que seduz pela beleza e assusta pela crueldade de alguns assuntos que aborda com singularidade. Vejamos o poema Moradia:
há uma cidade
no meu travesseiro,
um estado
embaixo da cama,
um país
entre a janela e a veneziana,
um mundo
num porta-retratos.
e você,
onde mora
aqui dentro
de casa?

Márcio Mattana enfatiza: “Embora Alexandre França nos ofereça um ciclo completo de manhã, tarde e noite, há sempre uma sensação meio noturna a brotar de seus versos. A manhã se mistura à madrugada e quase tudo é vivido dentro de quartos e salas, oscilando entre o sono e a insônia: “Há sempre alguém acordado por você”.

domingo, 10 de julho de 2011

Livro Passageiros do Espelho

RESENHA: PASSAGEIROS DO ESPELHO
A coletânea de contos tem a característica de respeitar o estilo de cada autor. Podemos então nos deleitar com os retratos muito bem elaborados por Bruno Camargo Manenti. Outros de alta dramaticidade, entre eles os trabalhos de Alessandra Pajola, Alessandra Magalhães, Fernando Scaff Moura, Sônia Cardoso e Zeltia G. Não falta uma visão do mundo espiritual feita pela professora Natália Bueno. Já o escritor Fernando Botto lembrou a infância e Maria Edna fala da idade madura. Elayne Sampaio e Ricardo Manzo nos levam por caminhos inesperados. Fernando Scaff Moura nos empurra para uma época de horrores que ainda está viva na memória da América Latina.
Na apresentação de “Passageiros do espelho”, José Feldman, da Academia de Letras do Paraná, fala: “Morremos e renascemos a cada conto. A cada espelho. Nos vemos confiantes, solitários, agoniados, suicidas, aliviados, tristes e alegres. Somos vários espelhos, mas ao final, apenas um”.
A escritora e poeta Adélia Maria Woellner escreveu no prefácio: “Os ‘passageiros do espelho’ rompem silêncios, oferecendo suas histórias, seus devaneios, seus encantos, os arcanos da imaginação”.
Fortalece esse trabalho a colaboração especial do escritor, professor e crítico literário Miguel Sanches Neto, que nos convida a fazer uma “Viagem de Volta”.
Nas orelhas do livro a atriz, radialista e escritora gaúcha Ângela Reale destaca que no livro penetramos “em mundos tão diversos, em encontros inusitados, sonhos desfeitos, amores de longe e de perto, saudades, morte e vida”.
Cada um dos contos é como um reflexo do acontecer. É a vida que se espelha na construção ficcional. Múltiplas manifestações construindo ninho nas palavras – e nos silêncios.
Esse trabalho começou em fevereiro deste ano, quando a Editora Íthala nos convidou para organizar uma coletânea de contos com alunos e ex-alunos da oficina “Como Escrever um Livro”, que ministramos no Solar do Rosário, o espaço criado pela doutora Regina Casillo. Como o número de participantes era limitado, falamos com os alunos do curso do primeiro semestre. Nem todos estavam dispostos a embarcar na aventura de escrever, reescrever e publicar. Alguns decidiram que ainda não estavam preparados ou que não podiam dedicar muito tempo a esse trabalho. E respeitamos a decisão de cada um deles.
Foi então o momento de falar com alguns ex-alunos com os quais mantemos contato pelo e-mail, como é o caso do escritor e professor Fernando Botto. Ele morou um tempo na Angola e, muito gentil, procurou-me quando voltou a Curitiba para que eu autografasse alguns exemplares de “O Livro do Escritor” para enviar a seus amigos angolanos. Também mantivemos contato com a jornalista e professora Alexandra Pajola, que participou da oficina e tem paixão pela escrita. Alessandra Magalhães e Natália Bueno, cada uma com seu estilo, destacaram-se durante as oficinas, e sempre enviam e-mail falando de seus novos trabalhos. Com Sonia Cardoso foi um encontro casual na recepção da Biblioteca Pública do Paraná. Ela já havia publicado um romance e estava iniciando outro trabalho literário quando eu fiz o convite para participar da antologia. Sonia aceitou imediatamente. Ela havia participado de uma oficina de contos que eu ministrei no Delfos, e tinha vários contos escritos. Uniu-se ao grupo minha amiga Sandra Rey Mosteiro, cujo pseudônimo é Zeltia G. Ela mora na Espanha, país onde edita a revista ZK 2.0.
O convite ao escritor Miguel Sanches Neto também surgiu espontaneamente. Ele havia sido meu entrevistado, e eu gostei muito da honestidade de suas respostas, além de admirar seus trabalhos como “Chove sobre minha infância” e “Venho de um país escuro”.
Os trabalhos foram árduos. Eu sei que o crítico acha que poucos trabalhos têm verdadeiro valor, mas eu quero mostrar os passos de um livro do ponto de vista do escritor. Escrever, reescrever sabendo que é impossível agradar a todos, mas cinzelando os contos com paixão. Só faltava uma boa apresentação para o nosso livro. A poeta Adélia Maria Woellner, pessoa despojada de vaidade, disse humildemente que escreveria, mas que se não gostássemos do prefácio, poderíamos ficar à vontade para escolher outra pessoa. Adélia é membro da Academia de Letras, e ficamos comovidos com a sua humildade. José Feldman, que apresenta o livro, é escritor, poeta e presidente da Academia de Letras do Paraná. Faltava só escrever as orelhas. Era um trabalho que eu pessoalmente não queria fazer, porque, além de organizar a coletânea, dois contos de minha autoria estavam lá, e acho triste quando a mesma pessoa organiza, escreve, prefacia, apresenta, faz as orelhas... Dá a sensação de orquestra de uma pessoa só. Eu gosto da diversidade. Gosto de olhares diferentes. Então solicitei a participação da atriz e cronista Angela Reale. Por fim, o trabalho estava tomando forma.

LANÇAMENTO
O lançamento de “Passageiros do Espelho” será em 26 de julho, a partir das 19 horas, no Palacete dos Leões, na Rua João Gualberto, 530, em Curitiba. A entrada é franca. Os interessados podem solicitar o convite pelo e-mail: isabelfurini@hotmail.com
Será um prazer compartilhar esse momento com pessoas que amam a literatura.


Publicado no jornal ICNews, na coluna de Isabel Furini "Livros de Negócios", em 08 de julho de 2011.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

hábitos do musgo

A poeta Eiléan Ní chuilleanáin.



O título do livro "hábitos do musgo" está escrito dessa maneira, sem letras em maiúsculo, talvez querendo fazer referência a um mundo escondido na cabeça da poeta Eiléan Ni Chuilleanáin. A Kafka Edições publicou em 2010 uma edição bilíngue, organizada e traduzida pela poeta e professora Luci Collin.



Eiléan Ní Chuilleanáin nasceu em 1942 na cidade de Cork, na República da Irlanda. Recebeu o título de Bachelor of Literature no ano de 1968. É uma das editoras-fundadoras da revista literária Cyphers. Poeta premiada, emprega um ponto de vista poético deslocado, enigmático.
No prefácio, Luci Collin assinala que “no panorama da poesia irlandesa contemporânea há um surpreendente número de poetas cuja importância literária vem sendo constantemente apontada pela crítica”. Os livros de Eiléan são reconhecidos pela crítica mundial pela alta qualidade literária.



No poema Antigas Recordações, encontramos o verso que serve de título ao livro:
Descobri os hábitos do musgo
que secretamente paralisa a pedra,
a ferrugem que suavemente rói as dobradiças
para manter a porta sempre aberta.
Tornei-me consciente da verdade
como a maré, impotente, subindo e descendo num certo ponto.

E, como podemos intuir nesse poema, a metáfora hábitos do musgo, talvez seja a força avassaladora e penetrante da poesia. Existe algo de metafísico permeando os poemas, um olhar não convencional, por isso a leitura de seu livro “hábitos do musgo” demanda várias releituras.
Em síntese hábitos do musgo é um livro de poemas profundo, enigmático, excelente para quem quiser penetrar num mundo subjetivo e enigmático.


Resenha de Isabel Furini publicada no ICNews.
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